sábado, 7 de março de 2009

O reflexo

Escrevo esses versos medíocre e egoístas, que sequer versos são, para descarregar uma alma cheia de escarro. E em meio à nebulosidade eu tento ver a pessoa atrás do espelho. Paro, fito, a fumaça do cigarro faz um "s" e ela ali, imóvel, a me olhar enquanto escrevo. Quem será aquela criatura que sorri? Tento alcançá-la chegando mais perto, mas por algum efeito transcendente, ela se afasta, e, à medida que me afasto, ela se aproxima. Quanto mais tento enxergar seu rosto, mais nebuloso fica entre nós. A fumaça embaça minha visão, só enxergo o cálice entre meus dedos, suas mãos, vazias.
Essa sombra que me segue, persegue meus passos e juízo, na verdade já nem tenho certeza se ela me acompanha ou se eu que a procuro, mas em cada lugar a vejo, em cada gesto, e em cada reflexo fico sempre a me indagar sobre o que é real, ou quem.
Eu, matéria, corpo e transpiração só posso enlouquecer. Como duvidar de minha própria existência? Mas as pessoas da sala não me reconhecem. Eu sou o reflexo que tinge a prataria da casa, mas será que o reflexo sou eu?
Tento encontrá-la, me encontrar, encontrá-la em mim, me enxergar nos reflexos até que tudo vire uma coisa só. Poder tocar em seus dedos e adentrar esse espelho, ou simplesmente tirá-la de lá sem saber ao certo o que será de mim.
Vou escrevendo esses versos sem rimas nem palavras até que eu consiga tocar o espelho e consiga fazê-los enxergar o que ninguém consegue, até que o espelho reflita minhas rugas e calos ou a tinta da caneta seque.
Vou escrevendo meus versos até que eu consiga descobrir, enfim, se refletir é ser ou se eu posso ser sem refletir.

2 comentários:

Tâmara Porfíro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tâmara Porfíro disse...

e lá vem aquela velha e sempre boa temática!
inédito dizer que adorei?
Ps:uma das melhores...
Perfeito[2]