quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aquelas tais borboletas no estômago

Já te disse que meu estômago encolhe toda vez que te vejo? E que antes de te ver passo horas em frente ao guarda roupa pensando o que devo vestir? E que antes de vestir passo horas no banheiro ensaboando cada fio de cabelo? E que antes do banheiro passo horas entre a cama e o sofá com o celular na mão, em uma tamanha aflição e com meus pensamentos a me engolir? Pensando em te ligar, pensando em esperar, pensando no que aconteceu, pensando na espera, na demora, na saudade. 
Ah! Pensando na saudade... Era isso, era ela que morava no meu peito antes de você ligar. É nervoso amar e completamente enlouquecedor. Já te disse que não durmo nesse dia anterior?! Que meus pensamentos devaneiam mil coisas sobre nós, penso no medo, no cabelo que irei usar, penso que devo dormir, na cor que minha boca estará, na hora que irei acordar e penso mil vezes em não pensar em mais nada. E depois, noites depois, me recuso a dormir se não for pra te ter nos meus sonhos. Já te disse que antes dos sonos e dos sonhos tenho medo? Medo por não poder me apaixonar e do que vai acontecer se isso acontecer com a gente. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


Eu não sei o que queria a menina que não sabia sorrir. Quando tudo estava inteiro ela veio e me mostrou que não, veio-me dizer que havia espaço dentro da minha casinha de lençol, veio me mostrar que dentro de uma casa da amarelinha cabe mais de uma a pular, veio desorganizar meu quarto, colocar um berço, uma cama, outra estante, dividir o espaço no meu guarda roupa e me fazer pensar o que faria se por alguma noite ela não estivesse ali...
A menina veio me morder, bater na minha papeira, riscar minhas bonecas, ocupar minha cama quando sentia medo, ocupar minha vida pra que eu não sentisse mais medo do mundo, veio me mostrar que a solidão é estar sem lar, veio me mostrar que o meu lar era dentro de seu pequenino coração.
A menina simplesmente veio, e me mostrou através do seu sorriso de aparelho que atrás da janela do meu quarto existe o mundo inteiro.Que não importa quanto tempo passe, quantas pessoas passem, quantos invernos ainda terão, estaremos ainda ali, dentro da velha casinha de lençol, brincando com as velhas bonecas riscadas de cabelos cortados. Ela me mostrou que eu não existiria sem que ela estivesse ali, ou a dor que sentiria se tivesse que vê-la partir,veio segurar a minha mão pra atravessar a ruae me mostrar que não importa quantas coisas ainda terei que dividir., a partir daquele dia, eu nunca mais seria só...

Feliz Aniversário minha Cacá, obrigada por vir pra me fazer feliz..


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entre fugir e arriscar
eu escolho os teus braços
Não há abismo mais seguro
que me assegure de tal forma
que a felicidade não tem tempo
O que existe são apenas nossas notas
trocadas embaixo do lençol
sentidas no teu cheiro em minha roupa
e respiradas
como o vício mais doce e inebriante.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sobre perdas e ganhos

Todos olhavam pra ela e diziam carinhosamente “vai passar”, disso a menina sabia, tudo um dia passa, se a vida não levar a morte se encarrega do trabalho. O que ela queria mesmo saber era “quando”, quanto tempo aquela dor ainda iria morar ali, quanto tempo restaria para que suas lembranças se afastassem, quanto tempo demoraria para que ela conseguisse olhar no espelho algo além de uma menina magra, chorosa e incompleta... a outra parte dela havia partido dentro de muitas outras pessoas, ela precisava se reencontrar, se encontrar.

É mesmo difícil juntar as peças de um tabuleiro quebrado, principalmente quando se acredita que tudo estava completo, mero engano, tudo acaba, o café, a comida, o dinheiro, até as contas acabam para ceder espaço a outras dividas, ou não, as dúvidas, o medo e aquela velha vontade de encontrar uma tal felicidade, isso sim, nunca morre. O que ela precisava era, mesmo dentro do olho do furacão, fechar os seus olhos e só assim se notar.

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz, ou muitos desses, colecionar fracassos por algum período pode ser normal, se afugentar neles não. Esperar que as coisas mudem, que as pessoas mudem, que as estações mudem não provoca mudanças onde realmente deveria haver, se a menina se mudasse, abrisse suas janelas, varresse sua casa, seus olhos seriam diferentes e só assim poderia surgir um mundo inteiro, novinho, pronto para ser experimentado.

Lutar é divinal, insistir, persistir, agüentar são qualidades louváveis mas saber parar, voltar, revisar seus caminhos e desisti de outros exigia bem mais coragem dela, a tal luta também pode ser o fracasso de alguém que tem medo de admitir o vão, medo simplesmente de enxergar o quanto se andou, o quão pouco se moveu.

Há vida e beleza em todo canto, até em seus olhos chorosos, embora a dor nos impeça de perceber e embora a menina que exista em nós permaneça muitas vezes assim, inerte, fria e morta no mundo que escolhemos pra nós.

[Homenagem às longas conversas que tive com um Ioiô de 16 anos]

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os bastidores da torcida

Que emocionante é uma partida de futebol! Se tratando de Brasil então, onde o futebol é a paixão, o país berço de inúmeros fenômenos, aposentados ou não, ainda é uma admiração e referência em futebol para milhares de apaixonados pelo mundo inteiro. O futebol de Pelé, de Garrincha, dos Ronaldos, patos e gansos não nos deixa mentir, somos o país do futebol mesmo, pentacampeão por competência, gerador de estrelas brilhantes e sonhos inimagináveis em todas as idades. Esse país das maravilhas futebolísticas deveria mesmo nos inspirar e até me inspirar a escrever a melhor matéria sobre o melhor futebol do mundo, mas quem vive aqui dentro sabe o quanto é difícil amar o seu time no país apaixonado pelo jogo.

O torcedor torce, vibra, doa o seu apoio (muitas vezes incondicionalmente), paga pelas camisas, paga pra ser sócio, paga o ingresso (o que não é barato), paga para ver o seu time ganhar (que muitas vezes não acontece) e ainda por cima paga com sua saúde e vida para ser simplesmente torcedor. Como pode ser tão desrespeitado o torcedor no país dos craques?! Se paga um ingresso caro para enfrentar filas quilométricas, sentar em um lugar meia boca e ainda correr o risco de ser agredido, insultado e desrespeitado pelos seus próprios companheiros, quando não, a nossa patrulha da defesa se encarrega do desrespeito, a polícia, provedora da ordem, é a primeira a tratar de forma desumana os humanos que é paga para proteger. Os estádios sem infra-estrutura adequada sequer são reforçados, caem arquibancadas, cai a grade de segurança.. segurança..

O país do futebol já criou muitos jogadores, já fez a sua fama, já imortalizou sua digital nos gramados universais, chegou a hora desse mesmo país olhar com mais carinho e cuidado para quem faz essa indústria girar. O torcedor precisa ser valorizado acima do salário de qualquer jogar, afinal de contas, não há jogo sem a estrela principal.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tudo Novo de novo

Chega uma hora que se acabam as páginas da agenda, acabaram –se os compromissos, os planos, os sonhos, de repente o amigo próximo torna-se o distante, as confidencias ganham novos ouvintes, os carinhos ganham novas peles e as pessoas ganham outro sentido, tudo ganha um novo sentido. Terminam 365 dias em 12 meses, sem espanto começamos novamente a conferencia por dentro das horas e dias, e mais 12 meses pra seguir, os mesmos 12 meses que já se haviam passado, no porta-retrato a fotografia, revelando que, no fundo, ninguém é o mesmo depois do ano novo.

De repente se descobre o quanto é importante viver, o quanto a vida já nos levou, o quanto ainda temos a perder, e percebemos que perdemos tanto e tantos que às vezes nem conseguimos correr atrás. A vida começa a passar na frente dos olhos como relâmpagos acusadores, tudo o que faltou, tudo o que restou, é só o que importa, a gente se vê novamente assim, presos a um tempo imaginário, aguardando o orgulho ou a acomodação nos tomar e fim, fim de ano, fim de uma parte da vida, fim do que poderia ser feito e não foi.

A cada 24 horas já se passaram no mínimo 24 chances de se recomeçar. Não é o calendário que tira as máscaras e dá ânimo a quem precisa seguir a caminhada. Que o ano novo seja mesmo um novo ano feliz mas que o ano novo seja novo mesmo só quando se acabar o calendário, pois a vida continua em cada linha da agenda.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vergonha brasileira

A vergonha de não saber dizer a resposta certa, de simplesmente não saber, de não ter nada a fazer, a vergonha de um voto, a vergonha da impotência... enquanto cerca de 170 milhões de habitantes saem pra derramar o suor do rosto sobre o trabalho diário pra ganhar um salário mínimo que é mínimo não só no nome, 11,2 milhões imaginam o que podem inventar em mais um dia de fome. O brasileiro de raça que nunca desiste é o primeiro a se desesperar com a conta a pagar, outros nem isso, se desesperam por não saber onde passar mais uma longa noite, mas fazer o que? A gente luta pra trabalhar, aumentam nossos impostos, luta pra votar, cancelam nosso voto, luta contra uma política baseada na corrupção, no poder centralizador, na maior e melhor distribuição de renda e os mesmo votos de confiança ou de burrice que fizemos são os votos que nos pisam, que aumentam a desigualdade, que tripudiam e riem agora. Palhaço mesmo é quem joga o voto fora votando em quem sequer é capaz de contar o valor de seu novo salário. Simplesmente vergonhoso, e eu me calo mais uma vez.

398 anos de espera

"Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
que eu não encontro por cá,
sem qu'inda aviste as palmeiras,
onde canta o sabiá."
(Canção do Exílio - Gonçalves Dias)


398 anos de palmeiras, sabiás, lendas, histórias, tijolos recobertos por azulejos que refletem uma cidade inundada por tradições. Enquanto tantos brigam pra dizer se é francês ou português o início dessa edificação, uma certeza essa cidade tem, a de que é genuinamente brasileira, recoberta por sotaques, cores, mestiçagens, mas que apimenta-se um pouco além em culinária peculiar com as ervas do cuxá, em danças tão envolventes como o tambor de crioula, mitos, fantasias e a verdade do bumba meu boi tão nosso... nossa cidade.

São Luís do Maranhão, norte do segundo Estado mais pobre do nordeste, Maranhão que significa terra da mentira, afunda essa ilha em mentira também. Cidade litorânea, cercada por praias, diversidade natural e cultural, riqueza de belezas conservadas e até de belezas não conservadas, mas que se mantêm belas, cidade tão pequena, tão grande, mas, que consegue ter tantas pessoas em ruas, tantos desempregados, tantas crianças fora das escolas, assaltos, mendigos, misérias, e se a realidade de São Luís, linda capital, é assim, imagina a do Estado. Pólo industrial, segundo maior porto do mundo, terra onde muito do que se planta, se colhe, terra que dá pra pescar, caçar e vender, ainda se imerge em lamúrias, em mães perdendo seus filhos para a fome, em desnutrição, em pais morrendo de tanto trabalhar, em um país em desenvolvimento que desenvolve cada vez mais a velha capacidade de mentir, de omitir, de sucumbir tamanha riqueza para o lucro pessoal. Riquezas tantas mal aproveitadas, mal distribuídas, marginalizadas da massa popular, marginalizando cada vez mais a esperança de quem espera que o voto mude alguma coisa.

É São Luís, feliz 398 anos de poder nas mãos erradas, 398 anos de uma história tão linda, em uma estória tão pobre. Felizes os ludoviscences que lutam tanto todo dia pelo pão na mesa, não só de um, mas de tantos maranhenses que merecem acordar em uma realidade melhor. E se nossa luta não basta, se a voz dilui no tempo, se o voto nos cala, desejo também que a mentira seja calada e que cada maranhense não se canse de lutar não só pelo fim de oligarquias, mas por uma São Luís de heróis, de lendas e histórias de verdades.

Qual o fio que nos uni e nos separa?

Lona posta, artistas maquiados, discursos afinados, forma-se o espetáculo. Peculiarmente, nesse circo os palhaços atuam sentados nas arquibancadas, se é que se trata de uma atuação! Circo onde a mão que lava é a que está suja, onde interesses e ideologias se misturam, confundem-se, fundem-se em uma coisa só e fazem da política, meio que deveria ordenar e organizar o país, um motivo de vergonha.

O conceito de partido político cai diante da maior ideologia pregada, a luta pela sobrevivência, quem tem mais poder se privilegia com o topo da cadeia alimentar, poder que é mensurado em números e valores de cédulas colecionadas. Esquece-se a ordem e parte-se para a execução do mais importante, o progresso pessoal.

E se um escândalo é pouco, podem se sentar e se deliciar, presidentes, deputados, mordomos e senadores aceitam entrar na dança pra continuar o show. Se esconder dinheiro em cuecas, lavar dinheiro em empresas, manipular emissoras e monopolizar o governo de um Estado não é ridículo o suficiente, os espectadores ainda podem se esbanjar em superfaturamentos de obras, quando há obras, empresas e funcionários fantasmas e, claro, sonegação do imposto de renda, afinal, é normal, todo mundo tem aquele empoeirado ato secreto no armário...

E o irônico é que nada pode deter esse ciclo, denunciar abusos de poder a cargos superiores é inútil, na política, quem cala se defende, chamar a polícia seria viável, lugar de ladrão é nas grades, mas não há muito o que se fazer quando a polícia é a primeira a roubar, qualquer movimento ou organização está envolvido nessa rede de interesses, ir contra um, é apoiar o outro.

A política vai se moldando, mostrando que o voto já nem vale mais, não existe democracia quando não existe nem escolha no voto, cassações ou candidatos trocando de partido são só exemplos que demonstram que não existe soberania da vontade da população, o caos é tanto que a escolha se torna cada vez mais difícil e sem sentido.

Bandeiras hasteadas, tomar partido pra quê? No final, tudo acaba por ser a mesma coisa e caminhar pra um só ponto, o ponto inicial de toda a discussão, um interesse em jogo, um bom discurso, platéia e pronto, forma-se a política brasileira, muito pão e os palhaços já dentro do circo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Caminhada

Anda,
Segue de repente essa vida indolente
Mente pra entrar no carnaval
e fingir felicidade inexistente,
Mas anda,
Foge da gaiola, passarinho
Voa pra encontrar um novo ninho
Pousa e repousa até cansar
E anda ainda mais
Anda pra sentir a liberdade
Anda para ter felicidade
Anda para encontrar a paz..

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Claridade

Segue tua viagem
eu não sou caminho pra seguir em segurança
Passada essa tempestade
pega a passagem e anda;

A claridade me curou
me guardou da solidão
tocou em mim, como clarão,
cegou,
mas me fez enxergar o que não via
dentro de mim é que se escondia o meu maior pesadelo

Já não fujo mais do sono,
a claridade me ninou,
iluminou meus pés e passos
carregou os meus pedaços quando tudo já não estava

E se o Sol precisa se pôr
Vá
Faz da tempestade claridade,
ilumina nos meus olhos a saudade,
E enche de vida outro lugar...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Meu barco sou eu

É esse meu eterno leva e traz que leva e traz inúmeras partes de mim, que faz esse pobre barquinho hora querer ancorar, muitas horas querer partir, mas que faz um não saber eterno sobre onde se ganha mais, se partindo para mares ou se fincando aqui suas âncoras. E se eu sou imprevisto e voluptuosidade é só por esse meu peito marinheiro continuar a querer pulsar, o mar é tudo que me alimenta, de água, de peixe, de vários mares encontrar, parar de navegar é delírio e morte, é retirar das minhas veias a água salgada e fazer do meu coração leviano apenas concha, fincada na areia.
E se querem saber quem eu sou é só preparar a bagagem, nessa minha viagem não cabem sonhos, nada de planos, esqueça o leme também, eu só vou a favor do vento procurando num destino incerto apenas a hora certa de chegar.

domingo, 10 de maio de 2009

Faço da minha prece um carnaval
Faço do mar meu mapa astral
Faço latitude e profundidade
Da incerteza a saudade
Da tua presença a minha dor...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Por ser volúvel

Volúvel, adj., do latim, aquele que gira, inconstante, variável, da botânica é o vegetal que se enrosca.

Você me diz que sou volúvel. Inconstante, talvez instável, variável como o mar, talvez ser mar nesse furacão seja a única maneira de evitar meu próprio naufrágio, frágil barco navegador, sou apenas espasmo de um coração que atirei no infinito.

Talvez seja tão volúvel quanto um pião, que se gira facilmente, uma saia na roda a dançar, uma cigana a volver, a te envolver, a te girar nos meus olhos, a me dançar nos teus braços, e eu, frágil menina, mulher só tua.

Volúvel, sim, talvez, em insistir em te querer entrelaçar. Tão volúvel quanto um caule que se espira, se prende, prende como uma serpente o objeto ao seu redor. Mas meu objeto é apenas o objetivo de te arranhar, te enlaçar e te fincar junto ao meu corpo, de ser volúvel pra te enfeitiçar em meus giros, pra te girar até meu precipício, pra te encantar e te mostrar que é inevitável não querer.

domingo, 29 de março de 2009

Cada pedaço

Pinga minha vida como escorre a água da chuva, ninguém sabe ao certo pra onde vai, ou o que se tornará, como o leite derramado e embebido pelo chão, vai meus pedaços a cada volta do relógio.

Faço e refaço minha sinfonia, instrumentos e instrumentistas se misturam. Cada um vai tocando em sua melodia, de forma irregular, o espetáculo desafinado de estar vivendo em mim. Desafinado mesmo é o meu compasso que ainda tenta manter o passo em meus pés.

Sinto tudo se esvaindo, pedaço por pedaço, vestígio por vestígio, só não me passa essa vertigem de querer saber além. Perceber que me jogar já não é suficiente me faz perder o pouco chão que tenho, se é que tenho chão. Na imensidão desse céu, de concreto, é só meu coração que pulsa, ainda pulsa a flutuar.

Gira o Sol acima da minha cabeça, correnteza que vai a me levar, pedaço por pedaço, vestígio por vestígio, tudo para vê se finjo que a moldura está completa. Para ver se existo cabal nalguma pintura, para ver se pinto minhas partes incompletas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Nossa imensidão

Eu fico olhando esse mar, a correnteza converge tudo em saudade e a areia molhada das tuas lágrimas absorve meus pés descalços. Minhas mãos sempre vazias portando apenas no meu dedo o peso de um anel. Confiro doze conchas no chão, é o dia certo para estar ali.
Tento mergulhar e cada vez mais fundo, encontrar lá no fundo do mar algum esconderijo em que a tua ausência não me alcance, romper uma onda e submergir sereia, olhar teus olhos infantis em qualquer gota de sal, de água, de chuva. Poder tocar o mar, mergulhar o céu. Nos teus braços me encostar e, enfim, renascer.
Hoje eu quero chuva, Sol já é tua pele contra a minha, queimando e ardendo, luz do querer, de ainda te querer, a cada dia e noite, como a lua nua em versos.
E se eu sou a lua, enquanto o calor do teu sangue me mantém, teus olhos são estrelas que me cercam, guiam, iluminam e se por vezes morrem, continuam a olhar por mim infinitamente e incansavelmente até que o amanhecer e a noite se encontrem no horizonte. Lá que teu corpo inflama a minha paz. Lá... onde o sol, a lua e o mar viram uma só imensidão.

domingo, 8 de março de 2009

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada


Vinicius de Moraes

sábado, 7 de março de 2009

O reflexo

Escrevo esses versos medíocre e egoístas, que sequer versos são, para descarregar uma alma cheia de escarro. E em meio à nebulosidade eu tento ver a pessoa atrás do espelho. Paro, fito, a fumaça do cigarro faz um "s" e ela ali, imóvel, a me olhar enquanto escrevo. Quem será aquela criatura que sorri? Tento alcançá-la chegando mais perto, mas por algum efeito transcendente, ela se afasta, e, à medida que me afasto, ela se aproxima. Quanto mais tento enxergar seu rosto, mais nebuloso fica entre nós. A fumaça embaça minha visão, só enxergo o cálice entre meus dedos, suas mãos, vazias.
Essa sombra que me segue, persegue meus passos e juízo, na verdade já nem tenho certeza se ela me acompanha ou se eu que a procuro, mas em cada lugar a vejo, em cada gesto, e em cada reflexo fico sempre a me indagar sobre o que é real, ou quem.
Eu, matéria, corpo e transpiração só posso enlouquecer. Como duvidar de minha própria existência? Mas as pessoas da sala não me reconhecem. Eu sou o reflexo que tinge a prataria da casa, mas será que o reflexo sou eu?
Tento encontrá-la, me encontrar, encontrá-la em mim, me enxergar nos reflexos até que tudo vire uma coisa só. Poder tocar em seus dedos e adentrar esse espelho, ou simplesmente tirá-la de lá sem saber ao certo o que será de mim.
Vou escrevendo esses versos sem rimas nem palavras até que eu consiga tocar o espelho e consiga fazê-los enxergar o que ninguém consegue, até que o espelho reflita minhas rugas e calos ou a tinta da caneta seque.
Vou escrevendo meus versos até que eu consiga descobrir, enfim, se refletir é ser ou se eu posso ser sem refletir.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Menina borboleta

Mas ela não sabia onde parar
se seguir a borboleta é voar
então melhor bater as asas também
Arco Iris dos meus olhos
a tua pele me contém

seja pálida de medo
rubra de desejo
seja apenas o meu bem,
Bem me quer que tantas vezes
já tirei de tantas flores

cores, odores, amores
que te viram a cabeça,
pode vim bem de mansinho
com esse soluço na garganta

vem e conta tuas histórias
eu te canto a minha dança
Joga a tua saia, menina
eu quero te ver voar
sem caminho, sem receita
segue a letra,
borboleta sem lugar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Já não me impulsiono mais no
pulso do meu coração
Agora pondero, não mais deliro
Às vezes deliro de tanto ponderar
Não tento me achar,
me esvario
Em qualquer rua, quaisquer águas
qualquer esquina...
Me entrego pra mim mesma
como escoa um rio
Sempre ritmo e cristalino,
desaguando para se juntar a poesia
Já não me pulso mais com
a frequência do meu peito
Mas não deixo de deixá-lo inflamar
Queimar-se em qualquer fogo
me incendiar
Vida que tenho, senhora,
é só essa
Mas vou deixando esse peito sossegar